Texto e fotos por Yuri Ravitz
A convite do proprietário
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O exemplar da nossa matéria ostenta o sempre presente Guards Red na carroceria. |
Quando você ouve o nome "Ferrari", logo imagina um carro vermelho, de duas portas e um visual bastante arrojado. Quando pensa em "Mercedes", imediatamente imagina um sedan elegante e com detalhes cromados em diversos cantos. É a mesma coisa que acontece quando falamos em "Porsche" e o mitológico 911; é a associação automática que vem à mente. Não é à toa, afinal, o coupé alemão de linhas curvilíneas e motor traseiro é um dos maiores clássicos da história, porém, nem só de 911 vive a marca.
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Interior com detalhes em couro e capota são finalizados em preto tradicional. |
Na verdade, a rica história da Porsche começa bem antes do nascimento do 911 e envolve uma série de modelos com personalidade própria, cada um com seu jeito especial de agradar e um lembrete de que a montadora também é competente na concepção de outros produtos além do nosso querido nine-eleven. Nossa matéria da vez é com um desses exemplos de como a Porsche sabe agradar de diferentes formas - o 944, um misto de coupé com hatchback que foi um dos maiores sucessos de vendas da marca em seu tempo.
O 944 é, ao mesmo tempo, um sucessor e uma evolução do 924 - isso significa que se trata de um modelo novo, mas que pega muito do seu antecessor para misturar com ingredientes atualizados, resultando em um carro ainda melhor e que ajudou a Porsche financeiramente em seu tempo. O 911 nunca foi um carro barato e, por isso, não vende o bastante para sustentar a marca sozinho; antes do Boxster, Cayenne e Macan, um dos produtos que foram essenciais na vida financeira da montadora foi, justamente, o 944. Ele foi produzido entre 1982 e 1991, sendo que o exemplar de nossa matéria é do último ano/modelo na carroceria conversível, da versão S2 - quando novo, seu preço nessa configuração ficava em torno de 53 mil USD (dólares americanos), alguns milhares de dólares abaixo do 911 Carrera de entrada (na época, da geração 964).
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Vidros verdes antecipavam a tendência dos nacionais de anos depois. |
Ele é um esportivo compacto, composto pela típica configuração de 2+2 lugares - dois convencionais e dois menores, exclusivos para crianças. Sua concepção geral foge bastante do que vemos no 911: motor dianteiro, faróis escamoteáveis, dianteira longa, chave de ignição à direita do volante, capô plano delimitado até antes dos faróis... em suma, se não fossem os emblemas, é provável que a grande maioria das pessoas jamais fosse imaginar se tratar de um Porsche. Até mesmo o motor é completamente diferente do que costumamos ver nos 911, embora, o 944 partilhe características como a transmissão manual de cinco marchas e a tração traseira.
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Capô é sustentado por amortecedores. |
No caso da versão S2 que protagoniza nossa matéria, estamos falando de um bloco de quatro cilindros em linha, naturalmente aspirado e com nada menos do que 3 litros - isso mesmo, é um 3.0 de quatro cilindros e 16 válvulas com comando duplo. Até hoje, é um dos maiores four-pots já utilizados em um carro de produção, produzindo saudáveis 211cv e 28,5kgfm de potência e torque máximos, o suficiente para levá-lo de 0 a 100km/h em pouco mais de 6 segundos e atingir a máxima de 240km/h. Nada mau para um "trintão" que pesa em torno de 1.420kg, cerca de 60kg a mais do que o 944 S2 fechado.
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O badge "16 Ventiler" faz menção ao motor de 16 válvulas. |
O 944 foi um grande sucesso, tendo comercializado mais de 170 mil unidades ao longo dos nove anos em que foi produzido, divididas entre a versão base, S, S2, Turbo e Turbo S. Da carroceria conversível, a Porsche vendeu apenas as versões S2 e Turbo, sendo que nossa protagonista S2 Cabriolet teve pouco mais de 5.600 unidades fabricadas. Atualmente, é possível adquirir um 944 base por menos de 10 mil dólares no mercado norteamericano - evidentemente, o valor sobe bastante nos exemplares em melhor estado de conservação e/ou das versões mais desejadas, podendo até passar dos 30 mil dólares. Ainda assim, é um dos ingressos mais acessíveis para o universo da Porsche, sem deixar a diversão e o prestígio alemães de lado; um S2 Cabriolet como o da matéria, por exemplo, dificilmente sai por menos de 20 mil dólares.
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Além do preto, o interior podia vir em outras opções de cores, além de combinações para deixar a cabine bicolor. |
Externamente, um traço marcante (e muito bem vindo) do 944 S2 é trazer o mesmo bodykit das versões Turbo: o para-choque frontal é mais integrado ao restante da carroceria, contando com finos segmentos âmbar para as luzes de seta e posição, bem como um outro segmento retangular mais abaixo com os faróis de neblina e alto. De lado, para-lamas mais musculosos e, na traseira, um discreto spoiler na parte inferior, logo abaixo e ligeiramente recuado do para-choque. Por dentro, bancos e alguns outros detalhes em couro, volante de quatro raios e, como destaque no console central, o sistema de som da Blaupunkt com equalizador por controles deslizantes.
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Faróis escamoteáveis não eram nada comuns na Porsche. |
Nas ruas, o 944 S2 deve pouco ao Turbo convencional, sem o S; dotado de freios por discos ventilados nas quatro rodas e suspensão traseira independente, o pequeno alemão entrega um comportamento muito bom e equilibrado. Não espere a "explosão" de um 911, é claro, porém, permita se surpreender com a esperteza e suavidade que o 944 entrega de maneira geral. Tanto é que alguns o consideram como um grand tourer, os famosos GT que são veículos pensados para proporcionar conforto em longas viagens pelo continente.
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Linhas limpas e fluidas como todo Porsche. |
Um ano após o encerramento de sua produção, o 944 foi sucedido pelo 968 que, embora seguisse a mesma proposta, não chegou nem perto de repetir o sucesso de seu antecessor; foi fabricado apenas entre 1992 e 1995, comercializando pouco mais de 12 mil unidades ao todo. Isso coloca o 944 como o modelo de maior sucesso do trio iniciado com o 924 e, consequentemente, um dos mais queridos por quem deseja um Porsche, mas por qualquer motivo, quer fugir do "lugar comum" de partir para um 911.