sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

2018 Renault Kwid Intense 1.0 MT5; quando menos pode ser mais

Texto e fotos por Yuri Ravitz
Modelo cedido pela Renault do Brasil


Este é o nosso primeiro contato com o inédito subcompacto da marca francesa. Confira todos os detalhes de nosso convívio de uma semana com o Renault Kwid na versão Intense, a mais cara de todas.
Nossa unidade testada veio na cor Laranja Ocre.


Em épocas de instabilidade econômica/política, todo centavo é valioso e todo ato de compra necessita ser muito bem pensado. Quando se fala da aquisição de bens de maior valor agregado (como um automóvel, por exemplo), os fabricantes precisam equilibrar um bom pacote de equipamentos com um visual agradável e preço competitivo se quiserem ver seus modelos liderando os rankings de vendas, o que é um desafio e tanto.

Existem muitas formas de se fazer isso e cada montadora adota a sua própria. A Renault decidiu ousar, apresentando o subcompacto Kwid como "o SUV dos compactos" devido a algumas características que falaremos mais adiante; passamos uma semana inteira com um exemplar da versão Intense, a mais cara da linha, que custa hoje R$40.490 (sem pintura metálica) para ver do que ele é capaz.

Versão Intense traz adesivos decorativos em degradê nas laterais e calotas escurecidas.

Visual

De maneira geral, o Kwid possui desenho simples e agradável. As linhas predominantemente quadradas, o perfil "altinho" e as molduras em preto fosco nas caixas de roda conferem um ar robusto que só é quebrado pelo tamanho diminuto: são 3,68m de comprimento, 2,42m de entre-eixos, 1,47m de altura e 1,58m de largura. Com isso, ele se mostra um pouco mais baixo e mais estreito que os concorrentes VW up! e Fiat Mobi, mas é mais comprido e possui os maiores entre-eixos e porta-malas com 290 litros, ante 285l do up! e 215l do Mobi.

O apelido de "SUV dos compactos" exaltado pela Renault se deve às especificações do INMETRO para classificar um veículo como utilitário esportivo: mínimo de 18cm de altura do solo, mínimo de 24º de ângulo de ataque e 19º de ângulo de saída. O Kwid cumpre essas três exigências e, embora isso não seja o suficiente para categorizá-lo como um SUV de fato, tecnicamente não é o maior dos pecados - pelo menos segundo o órgão.

Versão Intense traz retrovisores na cor do veículo, mas recebem capas pretas como parte de um pacote opcional.

A versão Intense traz rodas de 14 polegadas com calotas exclusivas, maçanetas externas e retrovisores na cor do veículo e outros elementos que ajudam a amenizar o aspecto de "carro popular" como os faróis com máscara negra e o contorno das janelas em preto fosco - os dois últimos, presentes de série em todas as variantes.

Motor 1.0 SCe fica bem acomodado no cofre do motor do Kwid.

Mecânica

Para movimentar o Kwid há uma única opção de conjunto mecânico: o conhecido 1.0 SCe flex de três cilindros e 12 válvulas, capaz de gerar até 70cv e 9,8kgfm de potência e torque máximos, comandados por uma transmissão manual de cinco velocidades. O motor em questão é uma versão simplificada do 1.0 SCe encontrado no Sandero, trazendo comando simples de válvulas ao invés de variável; houve uma ligeira perda de eficiência, todavia, vale lembrar que o Kwid pesa apenas 786kg, o que ajuda a compensar um bocado.

No mais, tudo o que se espera de um carro projetado para ser barato como suspensão por eixo de torção na traseira e freios a disco somente na dianteira. Para efeitos de comparação,  o conjunto não possui a maciez do Sandero, pois devido ao peso reduzido do Kwid foi necessário usar uma calibragem mais rígida a fim de mantê-lo seguro, o que comprometeu o conforto em pisos ruins. Já os freios utilizam discos sólidos ao invés dos ventilados, o que pode ocasionar fading (fadiga dos freios, levando a ineficiência) em longas descidas de serra em viagens, por exemplo.

Interior do Kwid é absolutamente simples, mas fica um pouco melhor na versão Intense.

Tecnologia

Chegamos a um dos pontos mais polêmicos do francês: a lista de equipamentos. De série, a versão Intense traz itens como: ar condicionado, vidros elétricos na dianteira, faróis de neblina, direção elétrica, alerta de luzes acesas, painel com conta-giros, indicador de economia e computador de bordo multifunção, limpador e desembaçador traseiro, ISOFIX, encosto de cabeça e cintos de três pontos para os ocupantes de trás (exceto o do meio), comandos internos de abertura do porta-malas e do bocal de combustível, quatro airbags, travas elétricas, cintos dianteiros com ajuste de altura e rodas de 14 polegadas com calotas.

A Renault oferece o pacote Connect que acrescenta multimídia Media Nav 2.0 com tela sensível ao toque, câmera de ré, retrovisores elétricos, detalhes cromados na dianteira, retrovisores em preto brilhante, chave canivete com abertura do porta-malas, interior com detalhes em branco marfim, maçanetas cromadas, bancos com partes que imitam couro e calotas em cinza grafite. A Renault pede R$1.400 por qualquer cor diferente do branco, como o Laranja Ocre do nosso exemplar de teste. Detalhes como rodas de liga leve, vidros elétricos traseiros e sensores de ré precisam ser adquiridos como acessório de acordo com a disponibilidade de cada concessionária.

Detalhes em branco nos assentos e portas estão presentes apenas na versão Intense.

Para ser um carro (bem) barato, a Renault precisou fazer cortes: há apenas um limpador de para-brisa dianteiro e ele não conta com regulagem de altura do banco do motorista ou da coluna de direção, nem espelho no quebra-sol do motorista. As rodas possuem 3 furos, o acabamento é inteiramente em plástico e há somente dois alto-falantes instalados na parte superior do painel. No dia-a-dia, algumas dessas economias não fazem diferença, já outras como a ausência de mais alto-falantes, e a imagem gerada pela câmera de ré incomodam pela baixa qualidade.

Faróis principais são por refletor único bifocal. Versão Intense é a única com faróis de neblina.

Como anda

O Kwid é um carro surpreendentemente ágil. Já elogiamos o 1.0 SCe em outros tempos (como na avaliação do Sandero) por sua valentia, se mantendo entre 2.500 e 3.000rpm na maior parte do tempo, mas os pontos negativos do moderno três-cilindros parecem mais evidentes no subcompacto: não percebemos tanta vibração quanto no irmão maior, porém, o SCe é ruidoso e no Kwid apresentou um som metálico incômodo ao acelerarmos com mais vontade - por vezes se assemelhando a uma turbina. A economia de combustível também ficou aquém do esperado, atingindo 13,7km/l na cidade e 14,5km/l em trecho rodoviário sempre com gasolina; aqui culpamos a simplificação do SCe que o deixou um tanto apático em giros mais baixos, exigindo reduções de marcha em qualquer ocasião onde seja necessário andar mais rápido, como uma ultrapassagem ou subida de rua. O 0 a 100km/h acontece em 14,5 segundos e a máxima é de 155km/h.

Para ajudar na condução, o indicador de economia em LEDs no centro do painel muda de cor do verde para o laranja ou vermelho de acordo com o pé do motorista, recurso semelhante ao encontrado no Captur e que outras montadoras poderiam adotar.

Em condições normais de uso, o Kwid agrada pelo baixo peso e tamanho reduzido que fazem dele um carro esperto, se movendo pelo caos urbano dos grandes centros sem esforço auxiliado pela direção elétrica, pelo câmbio de engates precisos (nem sempre suaves) e bom escalonamento, além da suspensão que se por um lado comprometeu em parte o conforto, por outro deixou o Kwid mais firme e estável, contrariando a sensação de insegurança que seu tamanho pode passar.

Espaço traseiro é bastante limitado, mas melhor do que nos seus rivais.

O entre-eixos é o maior do segmento e o assoalho traseiro é quase plano, o que permite que quatro adultos de estatura mediana consigam viajar bem acomodados. Medindo 1,80m de altura e pesando 113kg, consegui me acomodar bem no banco do motorista, porém, não sobrou muito espaço para as pernas de quem fosse atrás de mim.

Como foi dito mais acima, certas economias não incomodaram. O limpador único é eficiente, o acabamento interno é decente e sem rebarbas ou peças desalinhadas e os comandos passam boa impressão; já outras evidenciam o caráter de custo mínimo do projeto como os dois únicos alto-falantes que produzem som no máximo "aceitável" e a câmera de ré com imagem de baixa qualidade - mas que está lá e ajuda nas manobras. Quem gosta de ouvir suas músicas no carro com frequência sentirá a necessidade de instalar alto-falantes melhores ou aproveitar o tampão (bagagito) do porta-malas para colocar mais dois.

Solução interessante: câmera de ré fica instalada "dentro" do emblema.

Vale a pena?

A resposta para essa pergunta é direta como a proposta do Kwid: sim. O objetivo da Renault é oferecer um carro acessível que se saia bem no uso diário e isso o modelo cumpre com decência. Algumas economias podem ser resolvidas com o tempo caso o comprador queira, mas de modo geral, o Kwid se sai bem e surpreende a quem o subestima por seu tamanho. Vale lembrar que o pequeno também se destaca por dois fatores: vem com quatro airbags de série (motorista, passageiro e dois laterais) e recentemente alcançou três estrelas nos testes de colisão do instituto Latin NCAP tanto para adultos quanto para crianças, mostrando que as mudanças que a marca fez em relação ao indiano (que zerou o teste) surtiram efeito.


Veja mais fotos do Kwid Intense (clique para ampliar):